Aquela solicitação vinda do aeroporto de Congonhas tinha de tudo para ser somente mais uma chamada convencional… mas felizmente não era.

Num dia no meio da semana, por volta das 20:00 recebi a solicitação, e no aplicativo somente apareciam as duas únicas informações que o motorista Uber tem que são: o nome do passageiro e o local de encontro. O nome era Felipe (se não me engano), mas quando se procura alguém que você nunca viu, isso nada diz. Poderia ele ser qualquer um daquelas pessoas que se amontoavam na apertada calçada do desembarque do aeroporto. As pessoas esticavam pescoço tentando visualizar os carros que passavam pelo trânsito intenso formado ali. Uns motoristas querendo estacionar, os que já estavam com seus passageiros querendo sair. Os taxistas como sempre com olhares “tortos” e sempre dispostos em não colaborar em nada com os motoristas Uber, e porque não atrapalhar se for possível? Uma bagunça generalizada. Os guardas como sempre, à postos para autuar qualquer um que “pisasse”milímetros fora das regras de trânsito. Uma mesa farta dado aquela total desorganização. Consegui finalmente estacionar num ponto há uns 20 metros do local exato onde o aplicativo sinalizava, porém como o estacionei de forma regular fiquei tranquilo para descer e tentar identificar o passageiro.

Uma voz surgiu da direção oposta de onde estava olhando. Me virei e a primeira pessoa que vi foi um jovem, aparentando no máximo 17 anos. Me apresentei e abri o porta mala do carros. Ele vestia umas roupas tipo largas, não tinham marcas de grife aparente e se assemelhavam a vestes do tipo alternativas. Algumas espinhas eram aparente, sua pele estava bronzeada, do tipo de quem não se preocupou com filtros solares ou cremes de hidratação. Os cabelos levemente compridos, estavam meio despenteados e não passavam a impressão de estarem limpos àquela altura. Todo esse visual contrastava com os traços finos de seu rosto. Seu olhos aparentavam um certo cansaço do tipo de quem acabou de chegar de uma viagem, mas seu raciocínio rápido e bom discernimento contradizia a impressão inicial.

Acomodamos a única bagagem que o rapaz trazia, inclusive coloquei-a bem no fundo do porta mala para caber as bagagens das demais pessoas que estavam com ele. Como não vi ninguém, perguntei por seus acompanhantes, e para minha surpresa ele respondeu: Sou somente eu!

Em estado de surpresa, convidei-o a entrar no carro para partirmos, pois era o melhor a se fazer dado o enrosco de carros que aumentava a cada instante. Abri a corrida e partimos para sua residência.

Como ele demonstrou disponibilidade para conversar, logo fiz a pergunta que mais me deixava curioso naquela situação. Meio sem jeito, perguntei o óbvio… -Você está viajando sozinho? Para pergunta óbvia, resposta óbvia. -Sim, disse ele! Surpreso com o óbvio, perguntei a ele sua idade e novamente fiquei surpreso. Com ar de naturalidade e fala moderada, me respondeu: -Quinze anos!.

Aquelas respostas me deixavam cada vez mais encabulado e curioso, e então as perguntas perguntas continuavam.

-Seus pais te deixam viajar sozinho?

-Sim! Pois meus pais inclusive me incentivam a fazer isso, pois acreditam dessa forma que eu possa amadurecer e me virar melhor na vida.

Aquelas respostas me deixavam inquietos imaginando o tipo de vida e experiências que aquele menino já acumulara. Suas respostas eram curtas, mas todas dada com segurança e naturalidade. Continuei:

-Desculpe-me a pergunta, mas para onde você foi? E de novo com naturalidade ele me disse:

-Estou viajando há 13 dias. Fui para a Amazônia e depois fui para Brasília, e agora aqui estou!

Não perguntei nada a ele quanto ao que foi fazer ou o que viu nesses lugares, pois minha crise de discernimento por horas diz que eu posso estar sendo invasivo, inclusive quando a pessoa está me dando corda e sem demonstrar incômodo com a conversa. Complementou dizendo que para ele e a família era normal essa questão de viajar desde cedo, e inclusive que ele já viajará para o exterior sozinho. Estranhei essa possibilidade, mas não demonstrei a desconfiança de tal informação e fiz mais uma pergunta. -Você é emancipado ou coisa do tipo? A pergunta era meio contraditória, pois até onde sei a emancipação é permitida somente para pessoas de 16 anos ou mais. Mas com a mesma calma, simplicidade e resposta na ponta da língua ele me disse:

-Meu tipo de passaporte dele permite embarques internacionais sem a companhia adulta!

Decidi que não deveria mais ficar explorando esse assunto, muito menos colocar essa questão das viagens internacionais como dúvida, pois poderia pegar mal caso ele se sentisse sabatinado nesse ponto específico da conversa, e então mudei de assunto.

Como percebi que o rapaz era muito inteligente, conversamos de astronomia, viagem para marte, etc. Ele tinha uma característica que me chama atenção que são as pessoas que ficam totalmente em silêncio diante do interlocutor, absorvendo cada palavra do que dita, e sempre depois vem uma pergunta ou comentário muito pertinente sobre o assunto. Particularmente eu gosto muito de conversar com pessoas com essa característica.

E assim transcorreu até o final da viagem. Estacionei em frente a casa do rapaz. Com ar de felicidade ele pegou sua mala, se despediu de mim, tocou a campainha e de uma forma rápida o portão social se abriu e logo perdi ele de vista por traz daqueles muros altos. Encerrei a corrida e parti dali já em aguardo a próxima. Fiquei imaginando o tanto de lugares que havia para aquele jovem menino conhecer por esse mundo afora. Fui embora com a nítida impressão de que o mundo tem um promissor explorador jovem, inteligente, sonhador, corajoso e o mais importante de tudo, sentia com clareza a sua necessidade de liberdade. As vezes me pego pensando: Por onde andas aquele jovem rapaz agora?

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