Numa noite de sexta feira, quase sábado, recebi a solicitação de uma corrida na região de restaurantes dos jardins. Chegando ao local, aproximadamente três minutos depois, vi se apresentar como passageiros um jovem casal de aproximadamente 25 anos.

Após o embarque feito, abri a corrida no aplicativo e rumei ao destino, que era bem no começo da avenida Faria Lima. Eram pessoas discretas e falavam baixo, quase cochichando, mas eu percebi que falavam castelhano. Durante todo o trajeto não dirigiram em momento algum a palavra a mim, mas com o decorrer da viagem percebi se tratar de chilenos.

Ao chegar ao destino, numa travessa pequena da Faria Lima, se despediram e desembarcaram. Notei que ali não tinha nada específico, somente uma rua vazia e com pouca iluminação por conta das muitas árvores locais,. Ali somente se via ao longe a iluminação vermelha de um caminhão e os auxiliares que coletavam o lixo. O casal  rumou em sentido contrário, em direção a Faria Lima com a aparentemente intenção de fazer um passeio a pé. Não compreendi direito o fato deles andarem em direção a um lugar que havia acabado de  passar, mas provavelmente aquilo fora uma decisão tomada naquele instante.

Livre para novos passageiros, segui adiante. Fiz mais umas duas ou três corridas e quando estava embarcando um passageiro na região da Berrini, este entrou pela porta traseira do lado esquerdo, que fica atrás do motorista. O passageiro “chutou” algo e então disse que havia uma sacola esquecida ali, a qual me entregou.  No ato olhei no interior da embalagem, sobretudo para ver se havia algo que identificasse o dono, pois até aquele momento, já por volta das zero horas, eu já tinha realizado muitas corridas. Checando o conteúdo da sacola de papelão, identifiquei uma refeição feita para viagem e que a impressão da sacola apontava para um foodtruck especializado em comida peruana.

No primeiro instante, meu impulso era de devolver aquilo aos donos, mas decidi que deveria me concentrar no meu trabalho, traduzido naquele momento no passageiro que estava no meu carro e assim sendo esqueci momentaneamente do assunto. Terminado a corrida voltei minha atenção ao esquecimento, e ao que tudo apontava seria do casal chileno.

Pensando melhor na questão, vi numa situação complicada, pois não tinha como ir até o destino dos mesmos uma vez que eles saltaram num local público e não numa localidade fixa. Descartado a primeira opção, a segunda e natural seria fazer contato com a Uber para que os mesmos providenciassem os trâmites de devolução de objetos esquecidos. Mas pensando sobre essa possibilidade me deparei com outro obstáculo óbvio, pois se tratava de algo perecível. O que eu deveria fazer agora? Meu pensamento foi interrompido novamente por um novo chamado e era melhor não me atrasar pois alguém precisava dos meu serviços.

Hora por outra pensava no assunto, e aquilo se transformara pra mim como uma pedra que entra no sapato  ou mesmo aquele post it “gritando” na sua frente mas que você não consegue se livrar… e de uma hora pra outra, tive um insight claríssimo com a solução para aquela problemática toda … Reverenciei aos deuses incas por terem me trazido tal discernimento, e já em casa e sem sentimento de culpa algum, degustei aquele delicioso cardápio peruano.

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